8. ARTES E ESPETCULOS 28.11.12

1. MSICA  UM BRASILEIRO CHAMADO TIM
2. ARTE  A MADONA CATARINENSE
3. LIVROS  MUITA AO, POUCAS IDEIAS
4. BLU-RAY  NASCIDOS IMORTAIS, TORNADOS ETERNOS
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SNDROME DE PASCOAL PALUMBO

1. MSICA  UM BRASILEIRO CHAMADO JIM
Uma nova coletnea refora o status cult de Tim Maia nos Estados Unidos  onde, alis, o cantor tentou a sorte na dcada de 60, em uma fase pouco conhecida de sua carreira.
SRGIO MARTINS, DE TARRYTOWN

     O carioca Sebastio Rodrigues Maia (1942-1998) chegou aos Estados Unidos em 1959 com 12 dlares no bolso. Mal sabia balbuciar uma frase em ingls, mas pelo menos conseguiu que o taxista o levasse  estao Grand Central. Dali, pegou um trem para Tarrytown, a 40 quilmetros de Nova York, onde se hospedou na casa de uma famlia que conhecera no Brasil. A aventura terminou em 1964, quando ele foi deportado por roubo e posse de entorpecentes. Cinquenta e trs anos depois, o cantor retorna aos Estados Unidos, agora pela porta da frente. Lanada no incio de outubro pela Luaka Bop (gravadora do roqueiro brasilianista David Byrne), a coletnea Nobody Can Live Forever, dedicada ao autor de No Quero Dinheiro (S Quero Amar), praticamente esgotou sua tiragem inicial de 10.000 cpias. A imprensa tem sido igualmente generosa. O jornal The New York Times, por exemplo, deu a ele status de pioneiro: foi o homem que colocou o funk no Rio. Em sua acidentada turn americana da juventude, Sebastio era chamado de Jim, ou, para os mais prximos, Jimmy, porque os americanos no conseguiam pronunciar Tio, apelido dos tempos do bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Hoje, ele  conhecido pelo mesmo nome com que fez fama no Brasil: Tim Maia.
     O msico Roger Bruno, hoje com 68 anos, trabalhou com o cantor brasileiro nessa esquecida fase americana. Fazia doo wop (estilo vocal influenciado pelo rhythmnblues) quando conheceu Tim  alis, Jim , que ento integrava uma banda de twist. Bruno convidou o brasileiro a juntar-se ao Ideais, grupo que mantinha com os vocalistas Felix de Mais, Paul Mitranga e Bili Adair. O sotaque de Jimmy era carregado demais para que ele fosse o vocalista principal. Ele ficou responsvel pelas harmonias e pela guitarra, lembra Bruno  que era a voz maior do Ideais. F de Joo Gilberto, o brasileiro apresentou o trabalho do bossa-novista ao amigo americano. A influncia do violonista baiano fica clara em New Love, parceria de Tim Maia e Roger Bruno que integra o nico compacto lanado pelo Ideais (a outra cano do disco intitula-se Go Ahead and Cry). New Love seria regravada por Tim em 1973, mas ficou de fora de Nobody Can Live Forever, embora a coletnea privilegie canes em ingls. A gravao original do Ideais contou com a participao do baterista brasileiro Milton Banana, que estava em Nova York por ocasio do show em homenagem  bossa nova no Carnegie Hall. Outra presena ilustre no disco  o contrabaixista de jazz Don Payne. Bruno ainda guarda um compacto em sua coleo pessoal, mas, possessivo, se recusou a coloc-lo no toca-discos na presena do reprter de VEJA. No gostei da gravao, justifica-se.
     Tim Maia entrou para o anedotrio brasileiro por causa das inmeras vezes em que faltou a shows e entrevistas e por se queixar do sistema de som dos locais em que se apresentava. Os pedidos de mais grave, mais agudo, mais retorno viraram uma espcie de mantra, que ele repetia com satisfao. Jim ainda no fazia o gnero despachado do folclrico Tim. Ele estava sempre impecvel, com camisa bem passada e sapatos engraxados. Quando algum desafinava ou errava a harmonia, Jim o fuzilava com os olhos, lembra Bruno. Nas ocasies em que lembrava o perodo em Tarrytown, Tim falava dos vrios bicos que fez: entregou pizzas e ajudou a cuidar dos internos de um asilo. Bruno lembra de outra atividade do amigo. Ele recebia ajuda financeira de umas senhoras mais velhas, insinua.
     Tarrytown tem pouco mais de 11.000 habitantes. Nos anos 60, a cidade abrigava uma cena efervescente de jazz e msica negra. A convite de VEJA, Roger Bruno percorreu os locais que frequentava com o amigo brasileiro. Os Ideais ensaiavam numa loja de doces, em frente  delegacia da cidade. Apesar da proximidade dos agentes da lei, o local, controlado por um tipo mafioso, servia como ponto para apostas ilegais. Hoje a loja virou um restaurante  e de culinria brasileira. A poucos metros dali, na Rua North Washington, encontra-se a Shiloh Baptist Church. Tim Maia passava as tardes sentado na escada, deleitando-se com o canto gospel que vinha de dentro da igreja. Bruno lembra de Jim como um tipo dado a pequenas transgresses: pulava a catraca do trem e furtava comida em supermercados. No fim de 1963, foi preso juntamente com quatro adolescentes negros em Daytona, na Flrida. Jim ligou para o amigo, pedindo a este que pagasse a fiana. Eu disse que dessa vez no poderia ajuda-lo. Jim ficou furioso, diz Bruno. O cantor passou seis meses na priso antes de ser mandado de volta para o Brasil. Bruno nunca mais soube do amigo. Certo dia, foi procurado pelo jornalista e crtico Allen Thayer, colaborador da revista descolada Wax Poetics, que tentava confirmar se Bruno era mesmo coautor de New Love. No sabia que Jim tinha regravado a msica. Jamais recebi royalties por ela, diz. O disco brasileiro que inclui New Love tem tambm Ru Confesso, que por coincidncia trazia Paul e Sheila Smith, um casal de amigos de Roger Bruno, nos vocais de apoio. Tempos depois, eles me contaram que participaram do disco de um artista brasileiro chamado Tim Maia. Eu nunca imaginei que fosse o Jim. 
     Roger Bruno continuou no mundo da msica, compondo em parceira com sua mulher, Ellen Dalle. A dupla teve obras gravadas por Cher, Teddy Pendergrass e Pat Benatar, entre outros artistas. De volta ao Brasil, Jim, ou melhor, Tim Maia, tornou-se incomparavelmente maior. O cantor conjugou tudo o que aprendeu da msica negra americana com ritmos brasileiros como samba e baio. Ao mesmo tempo inovadoras e radiofnicas, suas canes (veja uma pequena seleo de prolas no quadro ao lado) definem e resumem o melhor do pop brasileiro. Nobody Can Live Forever est dando mais notoriedade a Tim Maia nos Estados Unidos, onde ele j era objeto de culto  sobretudo por Tim Maia Racional, seu disco esotrico de 1975. O repertrio de Nobody Cam Live Forever traz. alis, vrias canes dessa fase, mas ignora hits como Sossego. No importa: mesmo que cantasse em checheno, Tim Maia seria sempre o grande sedutor de multides. O disco novo realiza, em parte, um sonho do cantor. Jim sempre quis estourar nos Estados Unidos como artista pop, diz Roger Bruno. No  Jim, Roger:  Tim Maia.

TIM ESSENCIAL
As canes de Tim Maia que todos tm de ouvir para poder dizer que viveram
CORONEL ANTONIO BENTO (1970) - A cano composta por Luiz Wanderley e Joo do Vale aparece no disco de estreia de Tim Maia, lanado em 1970, e traz uma sacolejante mistura do funk e do soul americanos com os brasileirssimos forr e baio.
NO QUERO DINHEIRO (S QUERO AMAR) (1971) - Tim Maia fez sucesso (e dinheiro) encarnando o apaixonado que coloca o amor acima de preocupaes materiais. De autoria do prprio intrprete, esta cano danante j fez parte de shows da cantora Marisa Monte, do grupo Jota Quest e do sertanejo Michel Tel.
GOSTAVA TANTO DE VOC (1973) - Foi composta por Edson Trindade, companheiro de Tim no grupo Os Tijucanos do Ritmo. O arranjo, com naipe de sopros, define a mistura de soul e samba tpica do cantor.
RATIONAL CULTURE (1975) - Faz parte da fase mstica de Tim Maia, quando ele se filiou  seita Universo em Desencanto.  um funk psicodlico, com mais de doze minutos de durao, no qual o cantor prega as mensagens de sua  v l  filosofia. Prince no faria melhor.
SOSSEGO (1978) - O cantor brasileiro flerta, meio timidamente, com a onda disco. Tem arranjos de Lincoln Olivetti (que dominou as discografias do pop e da MPB na dcada de 80), instrumental da Banda Black Rio e guitarra de Hyldon, parceiro de Maia. O funk ficou conhecido a ponto de ter um trecho citado, na guitarra, pelo Guns N Roses, durante a apresentao do grupo no Rock in Rio 2001.
NUVENS (1982) - Composta em parceria com outro soulman, o cantor e compositor Cassiano, a cano surpreende pela versatilidade do arranjo: embora seja uma faixa soul, encontra-se ali uma forte influncia da bossa nova. Lanado pela gravadora Vitria Rgia, do prprio Tim, o disco esteve fora de catlogo por anos.


2. ARTE  A MADONA CATARINENSE
Uma tela encontrada no sul do pas desperta uma dvida: poderia ser essa uma legtima obra de Rafael?
MARIO MENDES

     Obras de arte antigas e valiosas encontradas por acaso em stos empoeirados, ou simplesmente abandonadas no lixo, so artigos comuns na fico. Por isso, a histria do mdico catarinense Amauri Cadore, ao mesmo tempo que desperta ceticismo,  daquelas que provocam curiosidade. Por conta de uma compra efetuada nos anos 80  e somem-se a ela coincidncias rocambolescas, viagens internacionais, anlises cientficas, encontros com peritos e, sobretudo, expectativas otimistas , Cadore  proprietrio do que cr ser uma pintura de autoria de um dos mestres do Renascimento, o italiano Rafael Sanzio (1483-1520). O quadro da Virgem Maria com o menino Jesus no colo, adquirido numa festa da comunidade italiana da pequena Rodeio, no interior de Santa Catarina, em 1987, exibe incrvel semelhana com um dos mais conhecidos trabalhos de Rafael, a Madonna Coloniza, pintada em 1508 e hoje em exposio permanente no museu Gemldegalerie, em Berlim. O quadro no estava  venda, era s a decorao de um antiqurio, lembra Cadore. Achei lindo e paguei 2000 dlares por ele. Os episdios subsequentes envolvendo essa madona brasileira foram transformados pelo mdico no romance A Descoberta (Compactos; 320 pginas: 44,90 reais). Posso ter floreado um pouco, mas tudo o que est no livro realmente aconteceu, afirma.
     Segundo Selma Trevisan, viva do antiqurio que vendeu a madona a Cadore, o quadro chegou  cidade de Rodeio por volta de 1870, trazido por um italiano. Depois da morte dele, a obra passou muito tempo no poro da igreja, at ser recolhida por seu marido. Quando Cadore a comprou, a tela estava em condies precrias: tinta descascando e o desajeitado acrscimo de um manto sobre a nudez do beb. O mdico e sua mulher decidiram ento mant-la em seu quarto. Meses depois, receberam um carto de Natal com uma ilustrao quase idntica  do quadro comprado por impulso. Cadore levou algum tempo at descobrir que o desenho no carto fora feito a partir da Madonna Colonna  e a teve incio sua peregrinao. Segundo ele, foi Pietro Maria Bardi, ento diretor do Masp, quem primeiro aventou a possvel autoria prestigiosa da pintura. Bardi disse que a autenticidade do quadro de Berlim era contestada, e que o meu, portanto, deveria ser estudado.
     O italiano Gianmario Finadri, responsvel pela restaurao que devolveu ao quadro de Cadore o aspecto original, em 2001, encomendou testes cientficos para determinar a poca em que a pintara fora feita e qual a tcnica utilizada. Encontrou nela a azurita, um pigmento muito usado pelos renascentistas Da Vinci, Michelangelo e Rafael. Mas tambm detectou em sua parte inferior esquerda o azul da prssia, que, por ser mais barato, passou a ser largamente empregado por volta de 1700  uma indicao de que a tela foi trabalhada em duas pocas distintas. O quadro apresenta alguns momentos de qualidade realmente superior. Mas o parecer final sobre sua autoria s poderia ser confirmado por uma equipe de especialistas ou um grande museu, declara o restaurador. Para Cadore, a questo  mais simples: Todos os especialistas que viram o quadro me aconselharam a continuar investigando. Ou seja, no h confirmao  mas tambm no h desmentido. Na semana passada, em So Paulo, o quadro foi exibido ao pblico pela primeira vez desde a sua restaurao, na noite de autgrafos de A Descoberta. Verdadeira ou no, a obra  impactante.
     Casos de obras com autenticidade questionada no so incomuns (veja o quadro abaixo), em particular quando o trajeto que sua custdia seguiu  perdido ou se interrompe  o economista canadense Don Thompson afirma em seu livro O Tubaro de 12 Milhes de Dlares que at 40% da arte exposta no mundo consiste em falsificaes. Outras vezes, so os hbitos do artista que vm dificultar a atribuio precisa: Rafael, por exemplo, mantinha um grande nmero de discpulos trabalhando sob seus auspcios e seguindo suas tcnicas. Talvez o parecer mais certeiro sobre a madona de Rodeio esteja no bilhete encontrado pelo antiqurio no verso da antiga tela. A mensagem, escrita por um padre nos anos 30, deixa claro que j se desconfiava ser aquele o trabalho de um mestre, e termina com um sugestivo Quem desvendar este mistrio?. A investigao, portanto, continua. Mas a certeza permanece to distante quanto antes.

SOB SUSPEITA
Alguns casos de tesouros artsticos que do margem a especulaes

Salvator Mundi, 
Leonardo da Vinci (1500)
O quadro, que pertenceu ao rei ingls Charles I, no sculo XVII, era dado como perdido at reaparecer em 2005  quando o atual proprietrio o enviou para estudos sobre sua autenticidade. O parecer dos peritos foi favorvel  autoria de Da Vinci, e a obra integrou a grande retrospectiva do artista na National Gallery de Londres, no ano passado. Mesmo assim, ainda se cogita que ela seja o trabalho de um dos muitos assistentes do mestre.

A Ressurreio de Cristo, 
Rafael Sanzio (1502)
Ao ser adquirida em 1954, por Pietro Maria Bardi e Assis Chateaubriand, para o acervo do Masp, a tela era ento desmerecida por estudiosos do artista. Ao longo dos anos, porm, surgiram desenhos realizados por Rafael que aparentavam ser estudos para a obra. O mais importante deles veio  tona em 1992, na cidade italiana de Pesaro. Trata-se de uma das mais importantes pinturas em exibio permanente no museu paulistano.

Medusa Murtola, 
Caravaggio (1597)
Durante muito tempo, foi vista como prima pobre da outra Medusa do artista, a que est na Galeria Uffizi, em Florena. Estudos com raio X e radiao infravermelha promoveram uma virada em seu status. Os esboos encontrados sob a imagem fazem crer que se est diante de um Caravaggio legtimo  possivelmente, um estudo para a Medusa mais famosa. Supe-se que o modelo foi o prprio artista, que teria pintado sua careta refletida num espelho.

Grande Figura Nua Deitada  Celine Howard, 
Amedeo Modigliani (1918)
Destaque da mostra Modigliani  Imagens de uma Vida, trazida recentemente ao Brasil, o quadro teve a autenticidade contestada em 2009, quando foi exposto em Bonn, na Alemanha: anlises revelaram um pigmento no usado em pinturas do mesmo perodo. Mas, de acordo com os realizadores da exposio no Brasil e com o Modigliani Institut, o quadro possui todos os documentos que confirmam sua autoria  inclusive estudos com raio X.


3. LIVROS  MUITA AO, POUCAS IDEIAS
Marighella  quase irretocvel como biografia. Mas nem que fosse perfeito o livro poderia elucidar o porqu de dedicar tanto trabalho, e tantas pginas, a esse personagem.
AUGUSTO NUNES

     Reprter obstinado, pesquisador competente e escritor talentoso, o jornalista Mrio Magalhes dedicou-se nos ltimos nove anos ao resgate da histria de Carlos Marighella (1911-1969), militante comunista na juventude, deputado constituinte com menos de 40 anos e fundador, j cinquento, da Ao Libertadora Nacional (ALN), a mais conhecida das siglas que afundaram na opo pela luta armada contra a ditadura militar. Magalhes desmonta verses fantasiosas, corrige equvocos, resgata documentos dados por perdidos, escava episdios desconhecidos  e reconstitui detalhadamente a trajetria do inspirador de Marighella  O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras; 732 pginas: 56,50 reais) Ao imprimir ritmo de thriller  narrativa, o autor torna possvel completar, sem tantas pausas ofegantes, a extensa travessia do que prefere qualificar de reportagem.
     As estantes ganhariam uma biografia exemplar se o bigrafo tivesse tratado Marighella sem tanta brandura. O baiano jovial que fazia versos e gracejava com parceiros de aventuras poderia ter doado alguns dos numerosos pargrafos que ocupa ao devoto de Stalin que celebrava a beleza que h em matar com naturalidade. E a presena do guerrilheiro urbano  to opressiva que no sobra espao para a apario do terrorista confesso. No Minimanual do Guerrilheiro Urbano, publicado em 1969, o biografado reserva um captulo inteiro ao terrorismo, uma arma que o revolucionrio no pode abandonar. Se essa face escura ganhasse a ateno devida, a figura desenhada no pareceria inverossmil. Ainda assim, seguiria sem resposta a nica interrogao de bom tamanho que o autor no conseguiu remover: com tantos protagonistas da histria do Brasil  espera de um bom bigrafo, por que consumir tantos anos de investigao e tantas centenas de pginas na exumao de um coadjuvante vocacional? O guerrilheiro que incendiou o mundo  um ttulo que nem os admiradores de Che Guevara ousaram reivindicar  s existiu no ttulo do livro. O que emerge da leitura  um homem de ao com coragem de sobra e juzo de menos, e que s desempenhou papel de nmero 1 na organizao clandestina que, de 1967 a 1969, comandou com uma arma na mo e nenhuma ideia sensata na cabea.
     O Marighella militante e depois dirigente do Partido Comunista Brasileiro foi apenas mais um cumpridor das ordens do onipresente Lus Carlos Prestes, convencido de que vale tudo na implantao da ditadura do proletariado. O Marighella deputado constituinte foi o mais aplicado companheiro de bancada de um Jorge Amado j na antessala da consagrao como romancista. O Marighella surpreendido pelo golpe militar de 31 de maro de 1964 s virou notcia por ter enfrentado a socos e pontaps os policiais que o prenderam, dois meses depois do mergulho na clandestinidade, em um cinema do Rio de Janeiro. Como no havia testemunhas da luta corporal, a prpria notcia foi s redaes dos jornais assim que saiu da cadeia. Provou o que dizia exibindo as marcas da pancadaria.
     Mesmo o comandante supremo da ALN teve seus poderes frequentemente confiscados por subordinados hierrquicos. Mrio Magalhes descobriu, por exemplo, que Marighella s soube do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick depois de consumada, em parceria com o Movimento Revolucionrio 8 de Outubro (MR-8), a mais espetacular operao promovida por partidrios da luta armada. O nmero 2 da ALN, Joaquim Cmara Ferreira, endossou e ajudou a executar o plano por estar convencido de que o chefe gostaria da ideia. Errou, revela o livro. Num raro surto de lucidez, Marighella compreendeu que o sequestro de um embaixador dos Estados Unidos provocaria retaliaes extraordinariamente superiores, em intensidade e violncia, ao poder de fogo da minscula tropa empenhada na perseguio do paraso socialista.
     Capturado em 4 de setembro de 1969, Elbrick foi solto dois dias mais tarde em troca da libertao de quinze presos polticos. Em 4 de novembro, Marighella foi fuzilado numa rua de So Paulo por um grupo de policiais chefiado pelo delegado Srgio Fleury. At sucumbir  emboscada, ele passara dois anos sonhando na cidade com a guerrilha rural sempre adiada por um assalto a banco, um atentado a bomba ou a execuo de um empresrio. O guerrilheiro urbano que se imaginava incendiando os campos do Brasil jamais entrou em combate contra tropas regulares do Exrcito. S enfrentou a polcia poltica. Como em todas as batalhas anteriores, perdeu. 


4. BLU-RAY  NASCIDOS IMORTAIS, TORNADOS ETERNOS
As restauraes de Lawrence da Arbia, Cantando na Chuva e Tubaro so um timo argumento em favor da imagem digital  e tambm da riqueza nica da pelcula.
ISABELA BOSCOV

     Os detalhes so tantos e to ntidos que tentar apreend-los todos  atordoante: at os gros da areia so visveis, assim como os microscpicos fragmentos de mica brilhando entre eles; a poeira est to entranhada no uniforme de Peter OToole que  possvel sentir entre os dedos a maneira como ela altera a textura do tecido; quando a cmera passa pelo rosto dele, o azul lquido dos seus olhos  de uma coincidncia preternatural com o azul do cu, e de um contraste feroz com os efeitos da secura e do calor em seu rosto; e, graas ao ar cristalino do deserto,  luz que inunda tudo e  percia monstruosa do diretor de fotografia Freddie Young, consegue-se divisar cada pormenor da paisagem para trs de OToole, das reentrncias das rochas que afloram a distncia at a linha incerta do horizonte. Lawrence da Arbia, do cineasta ingls David Lean, foi sempre de tirar o flego, e desde 1962 vem estarrecendo espectadores. Em 1989, j havia sido objeto de uma longa restaurao, a qual no apenas restitura ao filme sua montagem original de quase quatro horas como tambm eliminara muito do dano acarretado ao negativo pelo tempo e pelo mau uso. Muito, porm, no  tudo  nem de longe. A obra-prima de Lean acaba de ser submetida a um novo e ainda mais minucioso processo digital de reconstituio, e agora, em seu aniversrio de cinquenta anos, ressurge ainda mais gloriosa no Blu-ray que j est nas lojas. Recomenda-se v-la ou rev-la em televisor avantajado (de preferncia de plasma, de contraste muito superior ao do LCD), com som de home theater e em sala totalmente escura. E sugere-se tambm que o espectador se prepare para o fato de que nunca mais outro filme lhe parecer to grandioso: das atuaes antolgicas e roteiro lapidar  majestade tcnica, Lawrence  o pice do casamento entre forma e contedo no cinema.
     Graas aos novos mtodos digitais de restaurao, muitos outros grandes filmes esto chegando ao Blu-ray em cpias mais lmpidas do que jamais o foram. Alm de Lawrence, que sai pelo Sony, tem-se Cantando na Chuva, o maior dos musicais, e Tubaro, o primeiro e ainda um dos melhores blockbusters, entre dezenas de outros ttulos. O que se comprova  que o alcance da restaurao digital  virtualmente ilimitado. Veja-se o caso de Tubaro: Steven Spielberg teve de rod-lo com negativo ruinzinho e penou horrores com o tubaro mecanizado e as dificuldades logsticas da filmagem em alto-mar. Ainda que o espectador de 1975 no o notasse, portanto, o filme trazia variaes significativas de som, luz, cor e qualidade fotogrfica. No mais: no Blu-ray que a Universal acaba de lanar, a imagem e o som so de uma pureza absoluta, a qual s acentua a contraposio entre o cenrio ensolarado e preguioso da estao de veraneio de Amity e a ameaa mortal do leviat que ronda suas praias. Em Cantando na Chuva, a prioridade era devolver ao original sua gama muito particular de cores e a nitidez destas. O processo Technicolor, que os diretores Gene Kelly e Stanley Donen usaram neste sucesso de 1952, proporcionava paletas intensas, saturadas e muito definidas  que, embora diferissem das cores reais dos objetos fotografados, eram instantaneamente reconhecveis. Uma assinatura cologrfica, por assim dizer, especfica do mtodo e ainda mais especfica de cada filme em que ele era utilizado. Pois, quando o disco recm-lanado pela Warner comea a rodar, a sensao  de que uma caixa de tintas a leo explodiu na tela, tal a vividez das cores e a nitidez das imagens.
     Se cada filme a ser restaurado apresenta desafios prprios, Lawrence da Arbia, por sua magnitude e pela beleza superlativa das imagens, d a melhor amostra possvel do que a empreitada envolve. Rodado com as mastodnticas cmeras Panavision 65 mm no Marrocos e na Jordnia, sob temperaturas que s vezes superavam os 50 graus e chamuscavam tanto o negativo quanto o humor da equipe, Lawrence j nasceu primoroso, graas ao perfeccionismo irredutvel de Lean. Uma operao exemplar, portanto, foi organizada para fazer jus a tal matria-prima. Durante seis meses de 2010, o negativo restaurado em 1989 foi escaneado, quadro por quadro, no formato de altssima resoluo 4K ao gerar 8,8 milhes de pixels por quadro, ele fornece uma resoluo quatro vezes maior que a do HD, o vdeo digital de alta definio. No correr do ano seguinte, cada um dos quadros digitalizados foi limpo e corrigido individualmente no computador: riscos, manchas, reas deterioradas  tudo se recuperou e se retocou, at sobrar apenas a beleza das imagens. Por isso agora  possvel observar cada fio do bigode que Omar Sharif nunca mais deixaria de usar, e tambm distinguir os movimentos de cada camelo nas panormicas imensas de que Lean tanto gostava. Ou melhor, no s por isso.  o avano da tecnologia digital que permite devolver esses detalhes  luz. Mas  por causa da incomparvel capacidade da pelcula de captar texturas e nuances, sombras e luz, que esses detalhes esto l para ser reencontrados. 


5. VEJA RECOMENDA
DISCOS
SHIFTY ADVENTURES IN NOOKIE WOOD, JOHN CALE (DECK)
 O cantor, compositor e multi-instrumentista gals John Cale criou o Velvet Underground ao lado de Lou Reed, nos anos 60. A mistura de rock de garagem, experimentalismo e letras que falavam de uma Nova York meio decadente at hoje serve de parmetro para as bandas que seguem carreira no rock dito alternativo. Cale tambm brilhou como produtor: trabalhou em discos do grupo The Stooges e da cantora Patti Smith. Shifty Adventures in Nookie Wood  seu primeiro lanamento em seis anos. O disco traz canes mais acessveis, com sintetizadores, guitarras de tempero funk e uma faixa produzida pelo requisitado Danger Mouse (tambm produtor de Gorillaz, The Black Keys e Norah Jones, entre outros nomes incensados do showbiz internacional). A parceria deu liga, como se pode notar no delicioso funk I Wanna Talk 2 U. A romntica Living with You  outro momento agradvel. Mas o estilo mais palatvel no sufocou o furor criativo do setento Cale. Face to the Sky, forrada de baterias eletrnicas e teclados, e December Rains, com vocais alterados pelo auto-tune, mostram que Cale ainda possui uma alma inquieta.

BLUBELL & BLACK TIE (BORAND)
 O disco marca o encontro de dois belos talentos. De um lado, Blubell, nome artstico da paulistana Isabel Garcia, cantora de voz quente e extremamente afinada. De outro, o Black Tie, formado por trs veteranos do cenrio underground de So Paulo: o guitarrista e violoncelista Mario Manga, o violonista Swami Jr. e o violista Fabio Tagliaferri. Discos com recriaes de standards do jazz e do rock tendem a cair no lugar-comum dos arranjos bossa nova. No  o caso das verses de Swami, Manga e Tagliaferri (os dois ltimos, ex-integrantes do Msica Ligeira, grupo especializado em releituras). My Generation, clssico rebelde do The Who, ganhou um solo furioso de viola: Luz Negra, do sambista Nelson Cavaquinho, teve seu desespero acentuado por selos de violoncelo e pela interpretao doda de Blubell. Love for Sale (Cole Porter) e Ben (Michael Jackson) ganham interpretaes  altura de sua beleza. E o repertrio foge da obviedade: traz, por exemplo, Those Were the Days, sucesso da cantora Mary Hopkins que no Brasil ficou famoso como tema do Show de Calouros de Silvio Santos. Yokohama, que abre o disco,  uma tima cano pop do paulistano Incio Zatz.

LIVROS
CONTOS REUNIDOS, DE JOO ANTNIO (COSACNAIFY; 608 PGINAS; 99 REAIS)
 Passaram-se dias at que se descobrisse que Joo Antnio havia morrido, aos 59 anos, no apartamento onde morava sozinho em Copacabana, no Rio de Janeiro, em 1996. O fim melanclico diz algo sobre a personalidade e a arte do escritor paulista: de vida boemia, ele era dado a desaparecer por dias. Primeiro em So Paulo, sua cidade natal, depois no Rio, o autor de Leo de Chcara imergia no cotidiano de jogadores de sinuca, prostitutas, travestis, pequenos criminosos. Soube absorver a linguagem das ruas e estiliz-la em seus contos, com uma sensibilidade criativa que o coloca muito acima dos que hoje tentam fazer literatura marginal. J no seu livro de estreia, a coletnea de contos Malagueta, Perus e Bacanao, de 1963, Joo Antnio consagrou-se como um dos melhores escritores brasileiros de seu tempo. O presente volume inclui todas as coletneas publicadas pelo autor, mais dois contos dispersos e um indito, A Um Palmo Acima dos Joelhos. Como anexo, h uma reproduo em fac-smile de uma caderneta na qual o escritor anotava grias da rua  berro para revlver e crivo para cigarro, por exemplo.

AVENTURAS DE UM PESQUISADOR IRREQUIETO, DE CLAUDIO DE MOURA CASTRO (SESI-SP EDITORA; 208 PGINAS; 56 REAIS)
 Na introduo a este livro de viagens, o autor observa que as ideias prontas que se depositam em torno das palavras aventura e pesquisa sugerem que estas so atividades antpodas. O aventureiro seria o sujeito inconsequente que se arrisca nos lugares mais inspitos, e o pesquisador, o tipo de avental branco que vive enfurnado no laboratrio. Os dois esteretipos esto errados, diz Claudio de Moura Castro, e h muito em comum entre aventura e pesquisa: ambas so desafios s constries que a natureza impe ao homem. Moura Castro  bem conhecido por suas credenciais como pesquisador acadmico:  economista com formao em Yale, Berkeley e outras prestigiosas universidades e um grande especialista em educao  tema dos artigos que publica em VEJA. Ele  tambm um aventureiro, que viaja a congressos de sua rea levando um parapente na bagagem. Neste livro ele narra, entre outras, suas peregrinaes pela ndia, onde visitou mosteiros budistas na regio de Ladakh, e pelos Pireneus, entre Frana e Espanha. Sempre com descries vvidas e muita informao histrica: aventura, afinal, tambm  conhecimento.

DVD
O MINEIRO E O QUEIJO (BRASIL, 2011. QUIMERA)
 Jogados na clandestinidade a partir de 2000 em razo de uma aplicao obtusa da lei, os queijos artesanais mineiros elaborados a partir de leite cru, como o canastra e o serro, incluem-se no entanto entre os itens mais relevantes do patrimnio gastronmico e cultural do pas e so fruto de uma tradio que h mais de dois sculos vem sendo passada de gerao em gerao. Infundindo graa e leveza  sua natural indignao com tal estado de coisas, o diretor Helvcio Ratton deslinda em vrias frentes essa paixo mtua entre Minas Gerais (onde o produto pode circular, desde que siga certas normas de higiene) e seus queijos: conversa com os fabricantes  e s a msica do falar mineiro j seria deleite suficiente , entra nas fazendinhas, acompanha as ordenhas e a linda transformao do leite em queijim . Deixa tambm anotado que o produto, surrealmente,  contrabandeado  larga para outros estados. E, claro, saboreia o mais amado quitute feito a partir dele: o po de queijo. O que Dona Romilda tira do forno, no fim do filme,  de chorar de lindo.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. A Guerra dos Tronos  George R. R. Martin. LEYA BRASIL
5. A Dana dos Drages  George R. R. Martin. LEYA BRASIL 
6. A Travessia  William Young. ARQUEIRO 
7. O Festim dos Corvos  George R. R. Martin. LEYA BRASIL
8. A Fria dos Reis  George R. R. Martin. LEYA BRASIL
9. xtase  Lauren Kate. GALERA RECORD 
10.   Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 

NO FICO
1. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
2. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
3. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
4. Um Lugar na Janela  Martha Medeiros. P&PM 
5. Marighella  O Guerreiro que Incendiou o Mundo.  Mrio Magalhes. COMPANHIA DAS LETRAS 
6. One Direction  Biografia  Danny White. BEST SELLER
7. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA 
8. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
9. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
10. O Livro da Psicologia  Nigel Benson. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
2. Quem Pensa Enriquece  James Hunter. SEXTANTE 
3. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
4. Viajante Chic!  Gloria Kalil. AGIR
5. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Marins. GENTE 
7. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
8. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti. AGIR
9. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
10. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SNDROME DE PASCOAL PALUMBO
     Em honra  nova fase do Supremo Tribunal Federal, agora sob o comando do ministro Joaquim Barbosa, a coluna vai puxar do ba o humorista italiano Pitigrilli (1893-1975), muito popular no perodo anterior  guerra, depois esquecido, inclusive pela mancha da colaborao com o fascismo  e autor de um texto quem sabe til  reflexo dos integrantes de nossa ultimamente festejada Corte. Pitigrilli conta que na escola seu professor de redao props  turma o seguinte tema: Chegou-lhes uma carta da Alemanha; como no conhecem a lngua alem, escrevam a um amigo pedindo-lhe o obsquio de traduzi-la. Ele (Pitigrilli) achou fcil, e escreveu: Caro amigo, peo-lhe que traduza esta carta em italiano. Pelo que agradeo. O professor indignou-se. Ele no se dava conta de que o desenvolvimento era menor que o enunciado do tema? Julgava ter dito tudo, responde o aluno. Mas voc no julgou necessrio nem sequer se desculpar pelo incmodo que causava ao amigo? Se pensasse que lhe causaria algum incmodo, no lhe teria feito o pedido. O professor exaspera-se, chama-o de respondo. Voc no percebe que no faz nem referncia ao conhecimento que o amigo tem do alemo? Mas isso estava implcito.
     Foi a gota d gua. Levou uma nota zero, uma semana de suspenso, e ficou com a fama, na escola e na famlia, de achar que tudo est implcito. Para piorar, foi forado a ler em voz alta para a classe a composio do primeiro da classe, um certo Pascoal Palumbo, a qual comeava com as seguintes sublimes palavras: Caro amigo, a voc que tem a fortuna de conhecer o idioma de Armnio, j que seu nascimento se deu ao p do Quarnaro, que a Itlia fecha e seus limites banha, como disse o Divino Poeta que est a cavaleiro de duas eras, se bem que nas veias lhe corra latino sangue gentil: a voc, caro amigo, peo vnia se, roubando um pouco de seu tempo, que  tanto mais precioso porque o perder tempo a quem mais sabe mais desgosta, apelo  sua bem conhecida cortesia, para um favor de no pequena monta.
     Os anos passam e eis que um dia o antigo aluno rebelde recebe uma carta de Estrasburgo escrita em alemo (a Alscia, na juventude de Pitigrilli, era alem). O jeito era pedir a um amigo para traduzi-la. Escreveu-lhe: Caro amigo, peo-lhe que traduza esta carta. Felicidades. Arrependeu-se. Voltou-lhe o terror do zero, da suspenso, do xingamento de respondo, da fama do implcito. Veio-lhe ao mesmo tempo  lembrana a redao de Pascoal Palumbo, que por sorte ainda conservava entre velhos guardados. Copiou todos os seus catorze robustos pargrafos. O segundo dizia: Esta manh me achava ainda sonolento, tendo demorado um tanto no rescaldo do tlamo, quando  quem , quem no ? , toc, toc. toc, bateram  minha porta e me entregaram... adivinha o qu? Uma carta que, pelo selo berlins, compreendi que vinha da Alemanha. Seguiam-se aluses a Goethe e Schiller, mais Dante e Shakespeare, reminiscncias da vida de Cato, Scrates e Plutarco, uma citao em latim (Nil volentibus arduum!), e promessas de no futuro aprender alemo e compreender tambm as belezas dos monumentos literrios dessa nao to culta, sem no entanto descurar da Itlia, que, como cultura, a ningum se pospe.
     Passam-se os dias, e nenhuma resposta. Que teria havido? O missivista resolve ir em pessoa ao escritrio do amigo, onde fica ento sabendo do ocorrido. O amigo pegou a carta, leu algumas linhas do princpio, pulou para o fim, voltou para o meio, perguntou-se, Que diz ele? Que quer?, e afinal a jogou ao lixo. Quando soube, agora de viva voz, o que ao fim e ao cabo ela continha, disse: Mas era to simples. Por que no escreveu: Caro amigo, peo que traduza esta cana em italiano?
     J se adivinha a moral desta histria. Os ministros do Supremo Tribunal esto h mais de trs meses julgando o processo do mensalo. O caso  complexo e os rus so muitos, mas a demora tambm se deve aos votos longussimos, tantas vezes repetitivos, outras inchados de erudio e de retrica. O novo presidente, Joaquim Barbosa, provou ser homem destemido; que tal encarar a causa do voto enxuto e direto? O coabitante deste espao, J.R. Guzzo, props na semana passada que os ministros falassem o portugus corrente no Brasil. Se alm disso o fizessem de maneira concisa, o lucro seria em dobro. O ministro Joaquim Barbosa ter uma passagem inesquecvel pela presidncia da Corte se, dada a mxima vnia, aceitar o duplo desafio que, unida, esta pgina, com a humildade devida, mas tambm com os melhores sentimentos, lhe prope.


